terça-feira, 1 de dezembro de 2009

BURKE, Peter. O que é história cultural? RESENHA

A história da História Cultural, segundo Peter Burke


Um dos argumentos principais dessa obra de Peter Burke é o de
que, nas últimas décadas, os estudos culturais (re)despertaram a atenção de pesquisadores em vários países. Nesse contexto, historiadores que privilegiavam temáticas econômicas e sociais passaram a dar maior atenção às questões culturais. O mesmo tem ocorrido com historiadores dos eventos políticos, que começam a se interessar pelo que é recentemente definido como “ cultura política.
Esse amplo e diversificado movimento foi, para muitos, proveniente
dos cismas causados pelas agitações que assinalaram o “Maio de 1968”, que na França se desdobrou, entre outras coisas, na emergência da História das Mentalidades. A partir dos anos 1980, esta área de estudos foi, por assim dizer, incorporada à NHC, um movimento que desbordou a França para afirmar-se como um conjunto de propostas, abordagens e procedimentos articulados entre a História, a Antropologia e a Crítica Literária, cujos eixos irradiadores mais significativos se localizaram também na França, na Inglaterra, na Itália, nos Estados Unidos e na Alemanha. Apesar da expansão verificada nos domínios da NHC, permanece a pergunta básica: o que é História Cultural?


De acordo com o autor, a “história cultural (...) foi redescoberta
nos anos 1970 (...) Desde então vem desfrutando de uma renovação,
sobretudo no mundo acadêmico”. Com o propósito de explicar “não
apenas a redescoberta, mas também o que é história cultural, ou melhor, o que os historiadores culturais fazem”, ele dá ênfase “às diferenças, aos debates e conflitos, mas também aos interesses e tradições compartilhados”, combinando, para isso, “duas abordagens opostas, embora complementares: uma delas interna, preocupada em resolver os sucessivos problemas no interior da disciplina, e outra externa, relacionando o que os historiadores fazem ao tempo em que vivem” .
Burke constata que houve uma redefinição nos estudos históricos e
nas abordagens e discussões teóricas, quando ocorreu a ascensão da História Cultural, por intermédio de uma ‘virada cultural’, na qual análises econômicas, políticas e sociais se aproximavam de termos e diagnósticos culturais. E, no limite, reavaliavam antigas questões sob novas designações, como “cultura da pobreza”, “cultura do medo”, “cultura das armas” etc. Embora a pergunta sobre o que é a História Cultural tenha sido feita em 1897 por Karl Lamprecht, Burke observa que uma resposta satisfatória ainda não foi dada.
Nesse caso, uma resposta ao problema colocado foi o deslocamento
da atenção dos objetos para os métodos, a partir de um terreno comum: a preocupação com o simbólico e suas interpretações. Contudo, essa situação, segundo adverte o autor, tornou a História Cultural confusa, e uma alternativa seria rastrear a “história da história cultural”, que, para ele, se originou na Alemanha dos anos 1780 em diante. Antes disso, haveria mais histórias dispersas da Filosofia, da Literatura ou mesmo da pintura do que uma história cultural da humanidade propriamente dita. Daí Burke esboçar uma divisão da história da História Cultural em quatro fases: a “clássica”, a “história social da arte” iniciada nos anos 1930, o momento da descoberta da “história da cultura popular” na década de 1960 e o da NHC.
Na sua reentrada na cena acadêmica dos anos 1970, a
História Cultural permaneceu com problemas de abordagem, de fontes e de métodos. O conceito de cultura, por exemplo, continuou definido, argumenta Burke, de forma pouco operatória, e as investigações em torno da História Cultural, principalmente nos debates marxistas, ficavam, muitas vezes, como que “pairando no ar”. Um outro problema, observado pelo autor, é quanto à definição de “cultura popular” em oposição à “cultura erudita”. Tanto que, para Burke, “um dos aspectos mais característicos da prática da história cultural entre as décadas de 1960 e 1990 foi a virada em direção à antropologia”, fundamentalmente devido aos problemas na definição do termo cultura, embora essa virada não se tenha limitado aos estudos culturais.
De fato, “cada vez mais as questões culturais são apresentadas
como explicação para mudanças no mundo político, como revoluções, formação dos Estados”, o mesmo acontecendo nas análises de crises econômicas ou sociais. Burke salienta que, “de 30 anos para cá, ocorreu um deslocamento gradual no uso do termo pelos historiadores. Antes empregado para se referir à alta cultura, ele agora inclui também a cultura cotidiana, ou seja, costumes, valores e modos de vida. Em outras palavras, os historiadores se aproximaram da visão de cultura dos antropólogos”. Neste ponto, o autor faz referência aos antropólogos mais influentes e suas contribuições para a pesquisa histórica.
Burke prossegue sua argumentação, perguntando se a NHC estabeleceria um “novo” paradigma. Afirma, então, que a “palavra ‘cultural’ distingue-a da história intelectual, sugerindo uma ênfase em mentalidades, suposições e sentimentos e não em idéias ou sistemas de pensamento”.
Não foi por acaso que, em muitos casos, da idéia de representação
passou-se a dar maior atenção à de construção, seja da realidade cotidiana ou das manifestações artísticas e simbólicas como a pátria e a nação. Burke destaca que as idéias de performance e desconstrução foram importantes nessa redefinição de interesses e abordagens nas pesquisas.
Todavia, no seu entender, embora os estudos culturais tenham sido de grande valia para se reavaliar as ações e as atitudes dos homens e das sociedades no tempo, a expressão Nova História Cultural, que apareceu nos anos 1980, começa a demonstrar sinais de esgotamento. Para o autor, poder-se-ia pensar três cenários alternativos: um “’retorno a Burckhardt’, “usando o nome como uma espécie de síntese, um símbolo para o renascer da história cultural tradicional”; outro seria “a expansão contínua da nova história cultural para outros domínios”; e, por fim, “a reação contra a redução construtivista da sociedade em termos de cultura, o que pode ser chamado de ‘a vingança da história social’”.
O leitor pode chegar ao final da obra com a pergunta: será possível definir todo o agir humano em termos de ações culturais?

Um comentário:

jhghgj disse...

O QUE TEM HAVER PRATICA PEDAGÓGICA COM A CASA DA CULTURA

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